O Porto, fascínio para seus olhos

O Porto, fascínio para seus olhos

Por: Mariana Gómez Rus

Tradução: Leia Zimmermann

 Lado A

 O programa já tinha começado. Era de noite e o apresentador ia atravessando uma ruazinha medieval sob a luz de pequenos faroletes, ao mesmo  tempo em que eu ia atravessando a cozinha para sair de casa, enquanto olhava de esguelha a cena. Então ele disse: “Amigos, isto é Portugal”.  Detive meu passo e sem querer fiquei presa à tela da TV, hipnotizada até que o programa terminou.

Vários anos depois de ter visto aquele programa do  Lonely Planet, e  motivada pelo desejo intato de descobrir seu interior, aterrissei em Lisboa.  Percorri grande parte do país de trem, e uma tarde molhada de chuva de primavera, cheguei à Estação de São Bento no Porto.

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Porto foi uma das cidades mais encantadoras que conheci em Portugal.  Seu ritmo vibrante, seu povo amável, sua boemia, seu jazz e seu rio seduzem. Uma cidade que, apesar de ser a segunda  mais importante do país, é fácil de percorrer porque  todos os lugares e cantos que a gente quer visitar estão ali perto: as  cores e aromas da zona do Bolhão e seu mercado, o casco histórico e a Sé de Porto, as igrejas com seus azulejos de frente e seus  altares barrocos carregados de figuras, santos e ouro,  os parques na neblina e os museus, a ribeira  desde a ponte e desde o rio, os grafites e a  roupa  secando pendurada nas janelas, os prédios  e seus detalhes curiosos, o café Majestic e Bill Evans soando debaixo dos murmúrios de compulsivos bebedores de café, francesinha e pastéis de bacalhau, a Torre dos Clérigos justo em frente à janela do apartamento que aluguei, e claro: O vinho do Porto.

No domingo, tomei o primeiro trem desde a estação de Campanhã até Pinhão (um povoado vitivinícola de  800 habitantes) no coração do Vale do Douro. Sair cedo e misturar-me  com gente local me presenteou as melhores visões da viagem: jóvens que  chegavam  a visitar  seus avós em casarios que nem sequer apareciam em google maps;  gente  que  esperava o trem para voltar à grande cidade, o rio Douro brilhando sob o primeiro sol da manhã; e os cultivos em terraços sobre os cerros, desenhando todo tipo de formas entre o ordenado e o caos. Peguei minha máquina de fotos e fotografei de maneira quase obsessiva tudo o que ia vendo através do vidro, que a cada passo ia transformando-se em algo mais lindo, verde e encantador.

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Uns meses antes da viagem, eu tinha escolhido duas vinícolas ao acaso. Eu gosto do vinho do porto, mas não sou experta nem pretensiosa, queria apenas prová-lo e conhecê-lo.  Cheguei a pequeníssima estação de Pinhão, pitoresca e cheia de murais feitos com azulejos, e logo  caminhei até a  Quinta das Carvalhas, da Real Companhia Velha (uma das produtoras de vinho mais antigas de Portugal, criada a meados de 1700). Fui até o topo da colina, recorrendo seus vinhedos em terraços, enchendo-me de perfumes de alecrim e lavanda, vendo os vinhedos dançarem na ladeira e se perderem de vista , enquanto pensava sobre a dificuldade para trabalhar em um solo onde a pedra aflora quase na superfície. Fiquei pensando no desafio de manter os vinhedos sob condições hostis, sobre o sacrifício de colher e trasladar essa uva até a vinícola, desde aquela altura.  Depois visitei a Quinta do Bomfim, uma das propriedades dos Symington (de linhagem escocês, inglês e português), uma família que elabora vinhos desde o século  XIX  e é uma das principais produtoras de Vinho do Porto  (elaboram 30% do total de vinho da  zona),  até o momento  únicos produtores da região reconhecidos com 100 pontos de Wine Spectator, por seu Dow´s Porto´s Vintage 2007. Quando soube isso, pensei que minhas escolhas não estavam  nada mau por ter escolhido ao acaso.  Em Bomfim fiz um trajeto pela vinícola, cave e degustei Portos Vintage em uma sacada que a primeira vista devolvia a visão de um quadro.  À tarde, tomei o mesmo trem que me deixou em Pinhão, e que seguia até as entranhas do Douro e chegava até um lugar ainda menor chamado Pocinho; só por voracidade de mais vistas maravilhosas. Ao final do dia esperei o comboio que me levou de regresso ao Porto. Abracei por última vez aquele brilho do rio. Já sentia nostalgia das cores, sabores e perfumes.

 

Lado B

 O rio e seus segredos

O Douro é o rio mais importante da península Ibérica.  Tem 890 km de extensão, nasce na Espanha e logo  atravessa  200 km em território português, e desemboca no  Oceano Atlântico no estuário do Porto .  Antes do século XVII, o Vale do Douro já era conhecido por seus vinhos tintos e brancos. Embora  esses vinhos tivessem popularidade, foi somente no final de 1600 que ficaram famosos. O detonante foi o começo da guerra entre Inglaterra e França , ocasionando escassez de vinho no reino britânico, motivando que  Inglaterra tomasse a decisão de comprar os vinhos portugueses.

A região de Porto e Douro foi a primeira em delimitar-se como DOC (Denominação de origem controlada) para regular a qualidade dos vinhos produzidos. Constitui a  região vitivinícola mais antiga do mundo. Além do vinho do Porto se produzem vinhos secos brancos, tintos e rosados. As variedades tintas mais utilizadas são:Amarela, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Touriga Nacional e Tinto Cão;  Malvasia Fina, Viosinho, Donzelinho e Gouveio, no caso dos  brancos.

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A cidade do Porto e o Vale do Douro são Patrimônio da humanidade  e Porto  constitue uma das 9 Capitais Mundiais do Vinho.

Outras regiões vitivinícolas portuguesas de relevância são:Trás os Montes, Vinho Verde, Tavara Varosa, Dão, Bairrada, Beira interior , Lisboa, Tejo, Alentejo, Península de Setúbal, Algarve e  Madeira.

O que é o Porto?

É um vinho fortificado . A fermentação alcoólica  é cortada acrescentando aguardente ou álcool vínico.  Isto sobe sua graduação alcoólica  e permite que o vinho tenha maior açúcar residual. Logo, este vinho pode dividir-se em duas grandes famílias:

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1-Vinhos do Porto que envelhecem em madeira:

  • Rubi: vinho do Porto envelhecido até 3 anos. Vinhos do Porto Reserva que envelhecem em carvalho em um pouco mais de tempo e o Porto Late Bottle Vintage (LBV) que permanece em barris até 6 anos.  Todos estes vinhos se caracterizam por ser mais frutados e de cor vermelho profundo.
  • Vinhos do Porto brancos, elaborados a partir de variedades brancas, envelhecidos até 3 anos em barris de carvalho.
  • Tawny: é um vinho do Porto mais complexo que envelhece durante muito mais tempo em barris de carvalho. Este estilo pode ter de 10 até 40 anos de envelhecimento em barris. Os aromas são mais complexos e a oxidação na cor é notável, produto dos anos transcorridos na madeira.

Estes vinhos têm sofrido uma longa micro oxigenação através dos poros da madeira, motivo pelo qual, uma vez aberta a garrafa pode-se conservar durante umas 2-4  semanas  no caso dos Tawnys, ou até 10 dias em caso dos Rubys, antes de seu final decrépto.

2- Vinhos do Porto que envelhecem em garrafa:

  • Vinho do Porto Vintage representa uma colheita excepcional e pode estar até 5 anos em barris, enquanto que o resto do tempo envelhece em garrafa. Podem beber-se quando ainda são jovens mas darão o melhor de si logo de muitas  décadas. Estes vinhos são mais estruturados e complexos e sua cor se conserva bem.
  • Vinho do Porto Crusted  produzidos a partir de vinhos de um só ano mas,  igual que os Vintage, são capazes de madurar em garrafas. Os Crusted não estão filtrados e vão gerando um depósito natural na garrafa que motiva seu nome (“Crust” em inglês significa “crosta”).

Os vinhos do porto envelhecidos em garrafas  são muito delicados e se sugere consumi-los imediatamente depois de abertos (não mais de 1 dia para os Vintage e não mais de 5 dias para os Crusted).

 

Para se ter em conta:

  •  Quinta das Carvalhas (turismorealcompanhiavelha@gmail.com ) e Quinta de Bomfim (quintadobomfim@symington.com) são vinícolas acessíveis e estão localizadas  entre 400 e 600 metros desde a estação de trem de Pinhão. Em   Carvalhas  o tour inclui um passeio pelos terraços e as vistas  do vale são absolutamente imperdíveis.
  • Um tour de vinhos na região do Douro, incluindo uma ou duas vinícolas com uma degustação limitada de vinhos e comida custa de 110 aos 180 euros. Minha saída, sem intermediários, custou 80 euros incluindo traslados em trem, visitas aos terraços de cultivos e vinícolas, degustações ( 6 mostras de vinho em total) e almoço leve. Cada vinícola cobra por ingressar e degustar, entre 10 e 40 euros dependendo da degustação que escolha.
  • Para programar uma visita em trem pode ver o detalhe de horários, preços e combinações, inclusive falar com um operador para tirar todas as dúvidas em www.cp.pt Os tickets só podem ser comprados na bilheteria de São Bento ou Campanhã ( as duas estações de trem do Porto).
  • Se a sua estadia no Porto for muito curta e não tiver tempo para ir até o Douro, sugerimos ir até Vila Nova de Gaia do outro lado da Ponte Luiz I, e programar algumas degustações em Wiese & Krohn, Taylor´s, entre outros .

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Não deixe de provar!

  • Dow’s Tawny 10 Anos
  • Quinta das Carvalhas Tawny Reserva
  • Quinta do Bomfim Porto Vintage 2004
  • Dow’s Porto Vintage 1985