Montevidéu e Colônia:  Vinho com cheiro de candombe

Montevidéu e Colônia: Vinho com cheiro de candombe

Por Mariana Gómez Rus

Tradução: Leia Zimmermann

O candombe nasceu no Uruguai, das mãos dos escravos africanos que começaram a chegar ao porto de Montevidéu no final do século XVIII. Assim, a alegria, a pena, o glorioso e o profano se transformaram em dança, canto e música. Constituindo um fenômeno social e cultural tão forte (e profundo) que transpassou a barreira  do tempo. Faça a prova: atravesse o “Barrio Sur” num sábado qualquer à tarde agudize o ouvido e  siga o som dos tambores que invadem as ruas ao ritmo do tan-go, convidando os vizinhos e visitantes a essa contagiante emoção.

Vinho charrua.  Aqueles escravos procedentes de diferentes países africanos desembarcaram no Uruguai por conseqüência de outras correntes imigratórias. Imigrantes espanhóis, italianos e franceses que por sua parte, introduziram a cultura da videira e sua conseqüente expansão. Quem teve um papel protagonista nesta gênesis foi Don Pascual Harriague, um imigrante de origem basco, fundamental no desenvolvimento da vitivinicultura uruguaia a princípios do século XIX. O motivo? Foi Harriague que introduziu as primeiras plantas de Tannat no país. A uva terminou adaptando-se bem ao clima e ao solo uruguaio chegando a umas 300 hectares de cultivo, originando um vinho potente, com muita cor e grande estrutura (taninos). Com o tempo esse vinho se tornou tão popular que o Tannat passou a chamar-se “Harriague”, apelido que ainda hoje é usado em alguns vinhedos.

Durante muitos anos e já entrando no século XX, a produção de vinho no Uruguai esteve associada ao volume (do jeito que aconteceu na Argentina). Ou seja, elaboração massiva de vinho de mesa, quase exclusivo, de consumo interno. E foi para fins da década de 1980 que a indústria sofreu uma reconversão que entre outras coisas incluiu a erradicação de vinhedos velhos e a implantação de novos de alta qualidade enológica, a criação de uma entidade nacional reguladora (o INAVI); além de desenvolver a verdadeira identidade da uva Harriague  para voltar a chamar-se Tannat.

Uruguai está localizado entre 30 e 35 graus de latitude sul, deitado sobre as mesmas latitudes do Chile, Argentina, África do Sul e Austrália e, como eles, possui condições naturais e ambientais para elaborar vinhos enologicamente corretos. Os vinhedos repousam sobre planícies de solo principalmente argiloso e terras pedregosas numa paisagem exótica e surpreendente. E apesar de estar quase sobre o nível do mar, recebem influência das brisas do Oceano Atlântico e do rio Uruguai que trazem frescura noturna.

Uruguai  possui 10.000 hectares de vinhedos, traduzidos em 90 milhões de litros anuais distribuídos em aproximadamente 300 vinícolas (quase todos são estabelecimentos familiares que em alguns casos levam mais de três gerações em atividade).

Atualmente é o quarto produtor de vinhos da América do Sul e talvez o primeiro e mais tradicional exportador de vinhos para o Brasil. De seus 19 distritos, 15 têm atividades vinícolas, embora as melhores áreas são: os arredores de Montevidéu, Canelones,Rocha (perto de Punta Del Este), Paisandú e Colonia (Carmelo).

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Não só de mate vive o homem. O costume de tomar mate no Uruguai está profundamente e fanaticamente enraizado, tanto que se tornou uma espécie de extensão do braço de qualquer uruguaio. Seja em um povoado ou em uma grande cidade, o uruguaio SEMPRE se traslada com o mate em mãos (e não exagero). Conforme a BBC, é neste pequeno país onde se registra o maior consumo de erva mate por pessoa, com 8 kg anuais (destronando seus vizinhos argentinos e paraguaios).

E o que acontece com o vinho? Bom, aparentemente o vinho é tão sagrado como o mate. Conforme o site governamental marcapaisuruguay.gub.uy o consumo per capita é de 29 litros anuais por pessoa. Isto o coloca no posto número 12 de consumo mundial e número 1 no continente americano, seguido pela Argentina (bastante longe, com 19 litros per capita ao ano).

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Montando um roteiro de vinhos. Planejando uma visita ao país charrua e com vontade de degustar vinhos?

Pode-se organizar com empresas de enoturismo em Punta del Este (como The Wine experience) ou em Colonia Del Sacramento. E com respeito a Colonia, se você está hospedado em Buenos Aires poderá cruzar o rio durante o dia e pegar um tour de vinhos com Borravino tours.

Mas se estas opções não se ajustam aos seus tempos ou orçamento, você poderá fazer um percurso de grande nível, por conta própria, de maneira fácil e acessível.

A continuação, apresento algumas opções:

Colonia del Sacramento

A região vitivinícola de Colonia está localizada aos arredores do distrito de Carmelo, a 70 kms ao norte da cidade. Carmelo está localizada justamente onde nasce o rio de La Plata e é um povoado amável e tranquilo. Para visitar as vinícolas há duas opções:

1) alugar um carro em Colonia e transladar-se até Carmelo e percorrer vinícolas dos arredores (quase todas muito perto do povoado);

2) pegar um ônibus na rodoviária de Colonia e, ao chegar em Carmelo, fazer um acordo com um taxista para visitar uma ou duas vinícolas.

A primeira parada em Carmelo foi à vinícola Irurtia, uma das maiores do Uruguai com importante marca histórica. Fundada a princípios de 1900, marca o inicio da vitivinicultura na zona e atualmente é dirigida pela quarta geração da família Irurtia. Elabora perto de 1.5 milhões de garrafas ao ano. Sem dúvida, o mais lindo da visita é a cave, onde é certeiro encontrar vinhos com rótulos quase ilegíveis pelo pó, tempo e teias de aranhas; refugio de colheitas de mais de sessenta anos.

Irurtia além de elaborar vinhos tintos e brancos clássicos (Tannat, Viognier, Pinot Noir, Marcelán, Cab Franc e outros) também produz vinhos fortificados que sugiro não perder em uma degustação. Especialmente seu Gewurztraminer botritizado ou o mistel (muito especial e complexo). E como broche de ouro, prove um Tannat fortificado. Este vinho está feito à maneira do porto, com uma vinificação interrompida adicionando ao vinho mais álcool vínico, dessa maneira alcança 80g de açúcar por litro e finalmente sofre um longo envelhecimento em carvalho.

Para o meio-dia sugiro visitar El Legado. Em minha opinião, é uma verdadeira jóia que não se pode perder. Não somente pela grata surpresa da qualidade de seus vinhos, senão também pela calidez do lugar e da família anfitriã que me recebeu com muita amabilidade, apesar de ter chegado sem reservas. El Legado é uma vinícola familiar que funciona desde 2007. Seu nome está ligado à história familiar, que se inicia na década de 60, quando o pai de Bernardo Marzuca adquiriu alguns vinhedos e um depósito de ferramentas ( no mesmo lugar onde atualmente está a vinícola). Ele adquiriu os vinhedos e o depósito com o sonho de montar sua primeira vinícola, desejo que nunca realizou. Em 1980  os vinhedos foram vendidos para a família Irurtia. E já neste século, Bernardo decidiu retomar a história familiar. Comprou da família Irurtia os vinhedos junto com o galpão e erradicou plantas que já não estavam em condições de produzir uva de qualidade e implantou novos varietais. O vinhedo tem a direção de cordão vertical livre, um sistema pouco comum que permite à planta crescer com uma abertura diferente da tradicional (espaldeiro) favorecendo a insolação e ventilação, fundamental para conseguir cachos sadios. O vinhedo é trabalhado com baixos rendimentos procurando obter uma fruta mais concentrada. E mesmo que Uruguai não tenha a altitude (que facilita a amplitude térmica como acontece em Mendoza), goza desse ar proveniente do rio ( o km zero do rio De La Plata, a união dos rios Paraná e Uruguai) que, além disso deixa fresca as noites,e seca o excesso de umidade  do solo e das plantas.

Depois da visita provei três vinhos incríveis, especialmente o Sirah com um ano em madeira. Muito equilibrado, estrutura justa, boa acidez e com grande complexidade aromática.

Com a degustação veio uma tábua com queijos, presuntos e salames  de la hóstia! e tudo por US$25, uma verdadeira bagatela para o que foi a experiência na sua totalidade. El Legado atualmente produz 15 mil garrafas em pequena escala (impecável por onde quer que a veja) bem preparada e com alta tecnologia. Elabora Tannat, Cabernet Sauvignon , Syrah e Marcelán  ( um cruzamento de Cabernet e grenache)

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Se você nunca esteve em Colonia, vá! A cidade, recostada sobre a beira do rio de La Plata é encantadora. Dedicar-lhe uma tarde para percorrer suas velhas ruazinhas empedradas, subir ao farol, caminhar pela beirada do rio ou passear pela parte antiga da cidade, atravessando um perfeito túnel do tempo instalado na épica Calle de los Suspiros onde alguns dizem que, faz uns 200 anos, os réus condenados à morte desciam por essa ruazinha rumo ao seu destino final.

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Montevidéu

Se tiver vontade de bodeguear na capital Uruguaia, sugiro uma visita à Vinícola Bouza. Localizada a uns 20 minutos da cidade. Acredito que é uma das opções mais interessantes que brinda a área de Montevideu /Canelones.

A vinícola foi construída em 1940 e vendida à família Bouza em 2003. Elaboram umas 200mil garrafas ao ano, entre as quais são destacadas não somente o Tannat como também o Albariño, os blends e uma grapa muito especial elaborada com Tannat. Os vinhos passam de 3 a 18 meses em barrica.

Notei algumas diferenças com relação a Mendoza: uma prudente distância de 2 metros entre fileiras para evitar a sombra de uma vinha sobre a outra (especialmente nos vinhedos de Tannat que naturalmente são ainda mais vigorosos),  pedras colocadas ao pé do vinhedo para absorver a umidade excessiva e desviar a luz, ademais são realizadas 15 curas anuais para evitar o apodrecimento dos cachos e, é claro, só o uso de irrigação de sequeiro

Bouza tem uma opção muito boa para aqueles que andam sem mobilidade e querem a experiência completa: Um pacote de aproximadamente US$100 oferece traslado desde seu hotel, visita, degustação e um almoço elegante, apresentado em passos com harmonizações. visitas@bodegabouza.com

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Percorrer a beira do rio até Punta Carretas, perder-se na cidade velha e o porto (onde cada esquina é um cartão postal) deter-se no mercado do porto para comer algum corte macio de gado e provar um “medio y medio”  ou ir até o mercadinho agrícola para uma autêntica experiência cotidiana. Parar na rua 18 de Julio para ver a milonga ou caminhar até o Parque Rodo, Palermo ou Barrio  Sur e  viver toda a boemia do Barrio de las artes . Montevidéu tem de tudo e é fácil encontrá-lo.

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 Vinicola  El Legado.

Blend Tannat/Syrah 2015. Gran Reserva, Edição especial.

Notas  de cata

Por Iván Tkaczek, sommelier

Variedade curiosa e não tão conhecida, Uruguai tem feito do Tannat seu emblema. Seu nome deriva da casca que se utilizava para curtir o couro, talvez porque na França, seu lugar de origem, produz vinhos carregados deste componente (o tanino) que seca a boca e “curte” a língua e as gengivas.

Porém o clima do Uruguai, muito mais benigno por estar mais perto do trópico, nos oferece resultados mais aveludados e cheios de equilíbrio.

Neste  caso o encontramos em um corte com Syrah, uma das grandes variedades tintas do Ródano Francês  carregada de aromas especiados e com suficiente potência para não passar desapercebida.

Na garrafa que estivemos desfrutando na ocasião, os gauleses a definem como um “ grand vin”, ou seja, o melhor vinho que a casa faz, com uma colheita  suficientemente tardia para ter um corpo musculoso e suficiente aroma de fruta para não esconder-se atrás dos tons sedutores que aporta a madeira.

Encontramos então um vinho que nos recorda os figos maduros e o licor de morango e ameixa, onde notas de ervas e de louro  completam a paleta aromática. Uma barrica francesa equilibrada se manifesta nas notas de canela em rama, pimenta negra, chocolate, brownie e manteiga,  onde leves tons violetas e couro, tão típico do Syrah dão mostras de uma enorme complexidade.

Mesmo podendo  ser guardado por muitos anos, deixe-se vencer pela ansiedade e abra esta garrafa numa noite de inverno, com alguma carne de panela cozinhando longamente.