DIGA-ME QUEM ERES E TE DIREI ONDE BEBER (E COMER)

DIGA-ME QUEM ERES E TE DIREI ONDE BEBER (E COMER)

Por Mariana Gomez Rus

Tradução: Jeanne Coelho e Leia Zimmermann

Assim como cada um de nós tem uma personalidade diferente e sobre gostos e prazeres não se discute, também as vinícolas e seus restaurantes possuem uma identidade bem definida. A continuação, vai algumas propostas, aromas e sabores para todos os gostos e momentos.

Advertência ao leitor: As classificações são bem-humoradas. Minha sugestão? Não se feche. Seja generoso consigo. Prove tudo!

O pai de família

O enoturista que chega a Mendoza com seu grupo familiar normalmente arranca os cabelos pensando no que vai fazer para deixar todos os integrantes felizes: ela quer um lindo lugar para almoçar, as crianças querem brincar. E por outro lado, ele esconde no seu íntimo o desejo de encontrar uma vinícola que o deslumbre com bons vinhos.

Se o senhor forma parte deste universo a proposta é:

Wine y Circo

Atravessando a BR 92 tudo é tão bonito que a paisagem constitui um espetáculo em si mesmo. Paramos vinte vezes para tirar fotos e selfies. Cada canto é um cartão postal: vinhedos de ambos lados do caminho, arvoredos formando um túnel verde e eterno e a cordilheira majestosa, como um telão azul, lá no fundo. De repente, algo surge no caminho e chama a atenção dos quatro. Diante dos nossos olhos, e quase sobre a BR, uma fachada de circo toda pintada de vermelho vivo (Será por estarmos no coração do Valle de Uco?) cheia de bandeirinhas coloridas, nos convida para passar e beber. As crianças pedem para descer. Um rapaz vem ao nosso encontro. Ele é Juan Ubaldini, enólogo e dono da vinícola. Conta-nos que, junto a seu sócio, Javier Solfanelli, elaboram 40 mil garrafas por ano. Nesta pequena vinícola onde tudo se faz com muito esforço e paixão, a figura de “El equilibrista” (O rótulo mais conhecido do projeto) nasce da busca contínua da harmonia entre vinhedo, vinícola e produto final. Esse rótulo é o que dá origem a uma série de personagens circenses transformados em vinhos: La mujer Barbuda (A mulher barbuda,  feita a partir de uvas Cabernet Sauvignon  quase uva passa, muito raro); El domador del monstruo de dos Cabezas (O domador do monstro de duas Cabeças, um blend de Cabernet Franc e Sauvingon) ou Los cuatro jinetes y la rueda de la muerte (Os quatro ginetes e a roda da morte, um cofermentado de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Petit Verdot e Sirah). Esses são alguns dos integrantes deste inusual  eno-circo.

Depois da visita pela vinícola nos esperam com a mesa pronta ao ar livre. Estamos a passinhos do vinhedo. A cozinha aberta, simples e espontânea nos permite ver o que o Chef nos prepara utilizando ingredientes que vem do mesmo Valle de Uco (carnes, trutas, vegetais, verduras e frutas) que são riquezas locais, elaborados em diferentes fogos (nas chamas, brasas e forno de barro). Enquanto isso, as crianças brincam e riem no jardim acompanhados de um palhaço que parece saído de uma das garrafas que estamos bebendo.

Wine & Circo abre de segunda a segunda. Email. Tel. +5492622354772 ubaldiniwines@gmail.com

O romântico

Nunca falta o enoturista apaixonado. Esse (ou essa) que planeja um fim de semana especial para visitar uma vinícola elegante, desfrutar da comida maravilhosa, beber esse vinho magnífico, tudo em um lugar sonhado, ou seja, o momento perfeito. E o faz com um único objetivo, o de satisfazer a quem ama.

Se este é o seu caso, permita-me dizer-lhe que, definitivamente, deve convencer seu par a planejar um almoço em:    

Osadía de Crear

Sem dúvida nenhuma, o restaurante Dominio del Plata, propriedade da enóloga Susana Balbo, é uma das opções mais distinguidas no âmbito de vinícolas de Luján de Cuyo. A entrada é imponente e a arquitetura da vinícola têm formas clássicas. O âmbito do restaurante é delicado e sóbrio. E essa área de frente ao vinhedo, com vista para a montanha, é um cantinho ideal e intimo se o tempo permite. Aqui o almoço vai se apresentando em passos (cinco em total, harmonizados com vinho). Em cada um deles, o sommelier aproxima-se da mesa conta o que há nas suas taças e nos seus pratos e explica o motivo da harmonização apresentada. À medida que vão passando as etapas dos pratos, os vinhos se tornam cada vez mais intensos e as olhares de cumplicidade se acendem. O White Blend ( Semillón, Torrontés e Sauvignon Blanc), incluído no desfile de vinhos é um blend delicado e complexo,  inesquecível.

Depois do almoço, com a taça na mão decidiram fazer uma caminhada pelo vinhedo. Ali, no final da ruazinha, entre o canal e o vinhedo de Malbec, beijaram-se apaixonadamente e então ele perguntou (sem importar o clichê): você casaria comigo?

Para recordar: este restaurante não é apto para pessoas ansiosas. Tudo o que é bom se espera, igual que o amor.

Dominio de Plata abre de segunda a segunda. Cochabamba  s/n Luján de Cuyo. turismo@dominiodelplata.com

O Hipster 

Você,  jovem  amante do vintage e do  Jazz,  livre e boêmio,  na procura de um lugar descontraído e  legal,  minha sugestão é:

Estrella de los Andes e sua cantina “Prímula”

O chão estremece e os comensais ficam inquietos. É o trem que ainda vivo, percorre seu trajeto, trazendo coque da destilaria e passando pelo lado da vinícola, que o olha como detida no tempo. Atrás de um desbotado sinal da via-férrea, há um vagão esquecido que descansa junto ao jardim. No fundo, o vinhedo e a pequena vinícola.

No interior da cantina pode- se escutar barulhos de pratos que se esbarram e facas que cortam seus ingredientes em tábuas de madeira. O cheiro é de comida caseira. Um velho baleiro cheio de gominhas de hortelã e balas de todas as cores te convida a cometer pequenos atos delituosos enquanto espera o almoço. Há fome. O toca-discos gira trazendo uma música com fritura vinílica. Os livros cheiram a umidade e os chapéus ainda pendurados na parede, desde o início dos tempos.

Agora cantina que é cantina não pode faltar o vermute. Vem um Cinzano com galinhos de laranja e “soda” (água com gás). O menu do dia nos traz empanadas, provoletas e tapas.  Vejo a massa folhada das empanadas fumegantes e fico com água na boca. Os pratos são simples. É cozinha argentina e sem rodeios, diz Emiliano Schenone, o cozinheiro da Prímula. Vem um Cabernet  Franc à mesa. O vinho segue na mesma linha: deixa-se beber com facilidade, é frutado e autêntico.  O rótulo de um carro velho mostra a paixão dos donos pelos carros antigos.  Estrella de los Andes sai um pouco do modelo. Sua cantina quebra com a estrutura do almoço elegante em passos e se arrisca com rusticidade, sabor e menu à la carte.

Por outro lado, as obras de Tachuela se misturam com o vinhedo, o vagão e o jardim, surgindo assim caoticamente em um dos setores de produção da vinícola centenária; ainda em processo de recuperação. As fermentações se realizam em baixa temperatura para extrair mais aroma no nariz e boca, diz Lucas Moran, enólogo de Estrella de los Andes. A vinícola elabora ao redor de três milhões de litros e sua Estrella Negra, um Malbec com 12 meses de envelhecimento em barrica, é vendido a um preço bastante razoável por ser o ícone da vinícola.

Mas a experiência mais desafiante foi provar um fermentado de ameixa, que à primeira vista refresca e se vê como um vinho rosé, mas seu sabor e aroma se distanciam diametralmente do vinho. Isso me fez sentir uma acidez equilibrada e uma leve recordação de fruta cristalizada (como perfume de Natal).

Tachuela Delía é entrerriano e mendocino por adoção. Sua obra tem origem no ferro e na pedra. Suas esculturas talhadas em pedra, utilizando a escritura braile, são carimbos distintivos. Na vinícola Estrella de los Andes também podemos visitar seu hangar-oficina onde transbordam as instalações, entre o caos, o absurdo e a desconstrução.

Endereço: Olavarria 255, Perdriel – Luján de Cuyo

Telefone: 5492612213899/+5492614649190

E-mail :  info@bodegaestrelladelosandes.com

O Rocker

Se você gosta de rock ou simplesmente tem sensibilidade musical lhe sugiro o caminho em direção ao sul do Valle de Uco, mais precisamente até a entrada de Clos de los Siete e, uma vez que entrou, chegue até:

                                                                         Monteviejo

A marca roqueira é do Marcelo, o enólogo- conta Vanesa Appiolazza, parte da equipe de hospitalidade de Monteviejo. E segue: É que ele cresceu escutando Rock Argentino.  Toca a guitarra, tem muitos amigos no ambiente artístico e com eles também elabora vinho. E então enumera:  com Pedro Aznar tem uma linha de alta gama, Abremundos.  E a lista segue: Tem vinhos com Juanchi Baleirón, Felipe Staiti, Rano Sarbach, Jaime Torres, Coti e Fernando Ruíz Díaz. O estilo roqueiro da vinícola é tão forte que um encontro intimista entre amigos com guitarra e vinho terminou convertendo-se num concerto de rock que atualmente tem magnitude internacional, o Wine Rock (para 2018 já tem data: 7 de abril e reúne artistas locais e internacionais).

Os vinhos elaborados por Marcelo Pelleriti são elegantes, concentrados e potentes. Há microvinificações em barrica com mais tempo de envelhecimento em madeira.

A vinícola com formas simples no seu interior, impacta visualmente ao ingressar pelas ruazinhas do bairro de Clos de los 7. Seu teto verde, que é visto desde a entrada, permite manter a umidade e a temperatura de seus apreciados tesouros ocultos (caves e estivas) do outro lado da parede.

O restaurante está localizado no último andar da vinícola.  A dimensão e profundidade da Cordilheira dos Andes nesse ponto do Valle de Uco o deixarão literalmente pasmado. O almoço está sob a responsabilidade da chef Nadia Haron. O menu é fixo e se desdobra em quatro abundantes passos. A mesa, despojada de elementos visuais, vai vestindo-se à medida que chegam pratos e vinhos onde o bife macio e suculento é o prato principal. O staff do restaurante se encarrega de que não fiquem dúvidas sobre o conteúdo do teu prato e de tua taça. No ar respira-se rock desde a música até as paredes, e é nelas que visualizamos uma coleção de fotos de famosos da música local e nacional, inclusive o próprio Pelleriti com sua banda: “The Cellar”.

Nosso vinho favorito: Petite Fleur  Malbec, um hit que merece  subir o  volume. Monteviejo abre de Segunda a Segunda. Clodomiro Silva S/N. Valle de Uco. reservas@monteviejo.com.ar  +5492615328126

O noctâmbulo

Nunca falta algum visitante que procura começar seu tour de vinhos um pouco fora do horário ou aquele que chegou num voo depois das 17 horas, e não quer perder o tempo. Este último, deseja começar a visitar as vinícolas apenas colocou o pé em Mendoza e descobre que todas já fecharam. Então não sabe aonde ir e se frustra.  Quer ir a Catena e Catena não tem lugar nem que a vaca tussa. 

Estimadas e estimados, para todos vocês:

CARO

Este projeto começou lá pelo ano 2000, tem origem em duas famílias: A argentina Catena e a francesa Rothschild (donos de Chateau Lafite). O edifício da vinícola é de 1884 e também patrimônio histórico do estado (é parte da antiga Vinícola  Escorihuela Gascón). A cave, uma das mais antigas ainda em funcionamento em Mendoza, é uma espécie de túnel do tempo. Aruma, Petit CARO e CARO podem ser desfrutados na elegante sala que recebe visitas para a degustação. Além disso, é possível provar vinhos franceses elaborados pela família Rothschild.

A vinícola não tem oferta gastronômica, mas apresenta boas opções:

1- Vai, visita a cave, degusta os vinhos e prova (queijos);

2-Vai, visita a cave, degusta os vinhos e prova (queijos e frios) … Enquanto escuta (e pode-se dançar) tango (nas quintas a partir das 19:30h);

3-Vai, visita a cave, degusta os vinhos  e cruza ao vizinho, Francis Mallmann(“1884”) um dos melhores restaurantes de Mendoza.

CARO abre de segunda a segunda com reserva antecipada, desde às 9:30 até às 22h ( é a única vinícola que oferece visitas e degustações noturnas) numa localização privilegiada, a poucos minutos do centro da cidade de Mendoza.

Uma dica: Se vai  optar pela  combinação número 3 deverá fazer a reserva em Mallmann  para não ficar sem  mesa!

CARO fica em Alvear 151, Godoy Cruz – Mendoza. Contato: hospitality@bodegascaro.com.ar +5492614530963