CATENA-MANIA

CATENA-MANIA

Por: Mariana Gómez Rus
Tradução: Leia Zimmermann
Fotos: Cortesia de Vinícola Catena Zapata e Elizabeth Butler

Construída a semelhança de uma grande pirâmide Maia,  Catena Zapata emerge do meio dos seus vinhedos como um templo que, ano trás ano, recebe milhões  de fervorosos fãs de diferentes partes do mundo procurando render culto a seu liquido sagrado. Muitos dizem que Mendoza sem Catena ( em seu caminho ou em sua mesa) não é Mendoza. Neste artigo te contamos o porquê.

Perseverança, trabalho duro, inovação, paixão, um toque de loucura e  alguns golpes de sorte…Esses  foram os ingredientes que fizeram  que Catena se convertesse  numa marca ícone dentro e fora do mercado Argentino. A chave de seu êxito?  Cada geração desta família deu passos significativos e se esforçou em cuidar do que fez o anterior, destacando-se a figura de Nicolás Catena.

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Domingo Vicente Catena junto com seus pais, irmãos e irmãs em 1930

A história da vinícola começa nos primeiros anos do século XX quando Nicola Catena, o mais jovem de uma numerosa família italiana, decidiu  lançar-se à aventura  e perseguir o sonho de um futuro melhor para ele e para seus sucessores. Cruzou o charco e se instalou na Argentina. Sem falar espanhol e com pouco dinheiro no bolso, seu instinto o trouxe até Mendoza onde se dedicou ao que melhor sabia fazer: vinho. Comprou um pequeno vinhedo no Este do estado e começou a elaborar a bebida em pequena escala.

Por volta da década dos 30’, seu filho Domingo trabalhava junto a Nicola comercializando o vinho no resto do país. Nessa  época o nome Catena era associado a uma classe média agrícola bastante respeitada.

A meados de 1940 Nicolás, filho Domingo, ajudava com pequenos trabalhos familiares no sitio  embora sua mãe Angélica Zapata tivesse outra ideia para o futuro do seu filho. Assim os anelos  parentais eram opostos: enquanto seu pai desejava que ele seguisse o negócio familiar, Nicolás já era Doutor em economia … realizando  o desejo de sua mãe. Mas o rumo da história se transformou  quando a meados dos anos 60, Angélica e Nicola faleceram num acidente automobilístico e Nicolás teve que escolher entre o futuro acadêmico longe da família ou ajudar  seu pai tanto na sua vida pessoal como comercial. Teria que ajuda-lo a resgatar o negócio da vinícola . Decidiu meter-se de cabeça no negócio familiar  que, com o passar  dos anos , conseguiu converte-la num poderoso empório argentino produtor de vinho fino.

 Nicola desconhecia o  Malbec e as bondades do solo mendocino, mas  seus vizinhos o alentaram que plantasse. A tradição do Malbec continuou  com Domingo e seguiu com Nicolás que convencido pelo seu pai e sua filha Laura (hoje encarregada de continuar o negócio familiar) converteu o Malbec na variedade emblemática de Catena.

Quando Nicolás começou a se envolver  com a vinícola a situação na Argentina não era boa e a indústria vitivinícola tampouco estava bem: não somente  a má situação econômica repercutia gravemente, senão que também devia lidar com uma imagem negativa crescente, consequência da venda de vinho adulterado (com álcool metílico) que terminou com a vida de várias pessoas. Seu primeiro passo foi mudar a forma de vender vinho localmente. Nessa época o vinho era vendido a granel e os compradores fracionavam e  revendiam com outra etiqueta. Nicolás  comprou duas vinícolas para começar a vender seu próprio vinho com sua própria etiqueta. Investiu em publicidade para tentar reverter um pouco essa má imagem que o vinho carregava nesses  dias,  associando-o a momentos  familiares,encontros, bebida nobre e saudável .

cortesia Elizabeth Butter

Para meados da década dos 70, não conformado  com o vinho que elaborava, decidiu dar um salto na qualidade. Um enólogo americano assessorou a Catena com a ideia de ter um diagnóstico de como estava a indústria e o que era necessário para melhorá-la. Basicamente o vinho que se elaborava naquele momento na Argentina era medíocre: usava-se recursos tecnológicos e humanos mínimos, se trabalhava com tecnologia antiquada, manutenção péssima  e suja. Os processos durante a colheita faziam estragos na uva, oxidando-a  e despojando-a do melhor que trazia. A elaboração e o envelhecimento realizava-se  utilizando tanques, mangueiras e grandes vasilhas de carvalho velhas e furadas que não faziam mais que adicionar  oxido e bactérias contaminando o futuro vinho tinto. A tudo isso se somava a indiferença do consumidor  que tampouco lhe importava a qualidade e só tomava o que era posto na sua taça. O panorama não era animador. Nicolás Catena  tratou de amenizar o problema da contaminação aplicando sulfitos em todos os cantos da vinícola. O uso era excessivo e o risco de contaminação diminuía, mas em contra partida as possibilidades de que no dia seguinte após  beber esse vinho,  você sentisse  que sua cabeça ia explodir eram enormes. As coisas não melhoravam .

Interior subsuelo

No inicio  dos anos 80, Nicolás  se instalou um tempo em Califórnia. Ali dava aulas como professor na Universidade de Berkeley e nos fins de semana se dedicava a passear e conhecer vinícolas com sua família em Napa Valley. Sem grandes expectativas chegou à vinícola de Robert Mondavi,  que havia se associado ao Barão Philippe de Rothschild  com quem elaborava OPUS ONE. Descobrir essa vinícola foi redescobrir o vinho americano . Nicolás observou seu colega “gringo” e obteve informações valiosas sobre plantas, vinhedos, clima, terroir,  técnicas, barricas etc. Voltou a Mendoza e vendeu a vinícola que elaborava vinhos em quantedade e ficou com Esmeralda, a vinícola de vinhos finos da família.

Ir à busca da qualidade a princípios dos anos 80, num contexto onde a quantidade e o baixo custo levava vantagem era uma aventura louca.  As vinícolas erradicavam vinhedos envelhecidos, verdadeiros tesouros enológicos, substituindo-os  por grandes plantações de variedades enológicamente pobres ( como Cereza, Criolla ou Pedro Gimenez) que rendiam mais economicamente.

Nicolás Catena saiu desse molde e conservou cuidadosamente vinhedos antigos, plantou novos e de alta qualidade enológica. Seguro do que havia visto nos Estados Unidos , propôs como meta mostrar ao mundo que Argentina também podia fazer bom vinho.  Com o tempo descobriu que em vinhedos de maior altura a uva poderia dar um vinho mais distintivo e profundo. Chegou até os 1400 metros sobre o nível do mar, acreditando que poderia dar um salto qualitativo se pusesse à videira ao limite do estabelecido. Novamente muitos o chamaram de louco, mas sua inovação foi acertada. Mais adiante outros vitivinicultores começaram a imitá-lo e o os custos dos vinhedos em altura foram para as nuvens.

Extreme High Altitude

Vinhedos de altura, Vale de Uco

Para fins dos 80, os vinhos começaram sua metamorfose. Catena Zapata deixou de ser uma lagarta para se transformar numa borboleta e começou a exportar suas novidades. Naquele tempo o vinho argentino mais caro se comercializava em 4 dólares. Nicolás Catena foi além e determinou que seus vinhos estavam qualitativamente perto de algumas marcas californianas, o justo era vender seu vinho em um 30% mais barato que as etiquetas americanas. Foi assim como Catena começou a vender-se por US$ 15.

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Nicolás e sua filha, Laura Catena

 

 

Para meados de 2000 até a atualidade esta CATENA-MANIA não parou. Choveram prêmios reconhecendo sua qualidade e trajetória tanto a nível nacional como internacional, inclusive Nicolás Catena há sido nomeado “Homem do Ano” pela revista Decanter. Faz alguns anos uma colheita 97 foi leiloada em 30 mil dólares na China. Fazer uma reserva para visitar a vinícola é necessário  40-60 dias de antecipação ou mais, e o mesmo Robert Parker (no seu último informe de 2015) sobre vinhos argentinos para Wine Advocate, da as maiores pontuações  a vinhos que levam na sua etiqueta o nome de “Catena Zapata.

Os Vínculos

Alguns nomes associados a Catena Zapata que não deverias deixar de conhecer na próxima viagem a Mendoza.

Alejandro Vigil , o inimigo em casa. Apesar de Alejandro se considerar mais um viticultor que enólogo, o certo é que ele leva mais de uma década à frente do departamento de enologia da vinícola Catena Zapata e é considerado um dos enólogos mais emblemáticos da firma. Há alguns anos se associou com Adrianna ( a filha mais nova de Nicolás Catena) para por em funcionamento Aleanna, uma vinícola que elabora vinhos à maneira antiga, focalizando-se principalmente no Cabernet Franc. Além da elaboração de vinho sob o nome “El Enemigo” o projeto também inclui um pequeno restaurante (localizado no mesmo terreno onde tem sua casa, em Chachingo, Maipú) onde é um ponto de encontro entre amigos, clientes e visitantes. Longe da imagem corporativa, Alejandro pretende ter um contato mais direto e pessoal com clientes e curiosos que passam por sua casa que, certamente, o encontram na maioria das vezes , aproximando-se para conversar em algumas mesas e fazendo alguma piada do por quê escolheu ser “ El Enemigo”. Aberto de segunda a sábado, poderá aproximar-se a conhecer sua micro vinícola ao ar livre e a adega, escolher entre diferentes “flights” de vinhos ou contentar o coração com um suculento almoço que inclui de entrada petiscos frios, “empanadas” , caseiras e o prato principal, que consiste em um “bife de chorizo” com variedade de saladas alem duma sobremesa regional para finalizar essas delicias de boa vida e vinho. Videla Aranda 7008. Tel. 0261-6974213 info@casaelenemigo.com

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CA.RO, Uma vinícola dentro de outra. No final da década dos 90 nasceu CA.RO da relação comercial entre Nicolás Catena e Domaines Barons De Rothschild (Chateau Lafite) com o objetivo de criar o vinho mais elegante da América do Sul, focalizando no blend Malbec – Cabernet Sauvignon. A vinícola está localizada na ala NE da antiga vinícola Escorihuela onde Nicolás tem uma parte acionista que utilizou para realizar este projeto com Rothschild Trabalha só três linhas ( Aruma, Amacaya e CARO ). Vale a pena fazer um percorrido por suas caves centenárias e misteriosas, com uma passagem ao século XIX.

Abre de segunda a sexta das 9h às 19h. Uma boa opção é pegar o horário da ultima visita e ficar para jantar no vizinho: 1884, de Francis Mallmann. Presidente Alvear 151. hospitality@bodegascaro.com.ar Tel:4530963.

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Ernesto Catena e sua alma negra. Ernesto é o filho mais velho de Nicolás Catena e, sem duvida, representa o lado mais vanguardista da família Catena. Logo de estudar e morar no exterior se radicou em Buenos Aires. Fortemente influenciado pelo seu avô Domingo animou-se a encarar um projeto vitivinícola próprio no Vale de Uco. O vinhedo chamado Nakbé é orgânico e biodinâmico. Já faz alguns meses que a vinícola está aberta ao público e se pode desfrutar de diferentes maneiras incluindo almoço, visitas especiais às vinícolas e tardes de golfe. Ernesto é o criador de Tikal, Siesta, Padrillo e Alma Negra( cujo blend é um mistério a que somos convidados a descobrir somente através dos nossos sentidos). info@ernestocatenavineyards.com

Para os Catena-maníacos. Varias agências de enoturismo de Mendoza trabalham com Catena Zapata. Recomendamos os programas de Trout & Wine desenhados especialmente para aqueles que queiram conhecer e saciar sua gula em Catena. Oferecem programas econômicos que combinam Catena com outra vinícola da região, incluindo almoço leve e degustações de vinhos jovens por US$135 ou programas mais sofisticados (para os mais fanáticos) incluindo Catena e vinícolas associadas a este nome, com recorridos que podem durar um ou dois dias, dependendo dos interesses, disposições e orçamentos, incluindo degustações “premium” , guia especializado em português e almoços harmonizados com vinhos. Sugere-se adiantar a reserva já que é uma das vinícolas mais concorridas de Mendoza. Espejo 266, Te: 0261-4255613- info@troutandwine.com